Sentido

Tem coisas que a lógica não alcança

Existe um limite para aquilo que a lógica consegue sustentar. Uma reflexão íntima sobre espiritualidade, silêncio, dor e o momento em que entender já não basta. Porque talvez espiritualidade seja menos sobre acreditar em alguma coisa e mais sobre parar de fugir de si mesmo.

Por Henrique Mendonça··3 min de leitura
Tem coisas que a lógica não alcança

Talvez espiritualidade seja menos sobre acreditar em alguma coisa e mais sobre parar de fugir de si mesmo.

Existe um limite para aquilo que a lógica consegue sustentar.

E talvez uma das coisas mais difíceis de admitir seja essa:

Tem momentos da vida em que entender já não basta.

Você entende o problema.

Entende a origem.

Entende os próprios erros.

Entende os padrões.

Entende até aquilo que precisa mudar.

E ainda assim, alguma coisa continua fora do lugar.

Como se existisse uma camada da vida que não aceitasse ser resolvida apenas na razão.

Talvez porque nem tudo seja uma equação.

Nem tudo seja estratégia.

Nem tudo seja consequência direta de uma decisão ruim, de um trauma, de um contexto ou de uma explicação suficientemente inteligente.

Às vezes existe apenas um silêncio estranho.

Uma sensação difícil de nomear.

Um vazio que a lógica até consegue descrever, mas não consegue preencher.

E acho que minha relação com espiritualidade começou, de alguma forma, por aí.

Não exatamente pela fé.

Nem pela religião.

Muito menos pela necessidade de encontrar respostas absolutas.

Começou por uma inquietação.

Uma sensação persistente de que talvez existissem perguntas dentro de mim que eu ainda não tinha aprendido a fazer direito.

A tentativa de explicar tudo

Durante muito tempo, eu tentei entender a vida do jeito que sabia.

Pensando.

Analisando.

Observando.

Conectando padrões.

Tentando racionalizar.

Talvez por hábito.

Talvez por defesa.

Talvez porque entender sempre pareceu uma forma de recuperar controle.

Se eu consigo explicar, eu consigo lidar.

Se eu consigo organizar, eu consigo resolver.

E existe alguma beleza nisso.

A lógica ajuda.

A razão protege.

A inteligência organiza o caos.

Mas talvez uma das coisas mais desconfortáveis de crescer seja perceber que existem dores que não desaparecem só porque você conseguiu compreendê-las.

Existe sofrimento que permanece mesmo depois do entendimento.

Existe vazio que sobrevive à análise.

Existe cansaço que nenhuma explicação consegue alcançar.

E talvez seja justamente aí que alguma coisa começa a mudar.

Quando você percebe que não está procurando apenas respostas.

Está procurando chão.

A busca que não era exatamente religiosa

É difícil explicar isso sem parecer que estou tentando defender alguma ideia.

Porque talvez não seja sobre ideia.

Nem sobre crença.

Nem sobre encontrar um lugar definitivo para pertencer.

Talvez seja mais simples.

Ou talvez mais complexo.

A sensação de perceber que existe alguma parte sua pedindo escuta.

Não salvação.

Escuta.

Como se algo dentro de você dissesse:

existe uma forma menos endurecida de atravessar a vida.

E talvez espiritualidade tenha começado a fazer sentido para mim quando deixou de parecer uma tentativa de encontrar respostas sobrenaturais.

E começou a parecer uma tentativa de voltar para mim.

Para o corpo.

Para o silêncio.

Para a intuição.

Para aquilo que a pressa tinha deixado para trás.

Porque talvez espiritualidade seja menos sobre acreditar em alguma coisa.

E mais sobre parar de fugir de si mesmo.

Essa frase tem ficado comigo.

Porque fugir de si mesmo pode acontecer de muitas formas.

No excesso de trabalho.

No excesso de distração.

No excesso de racionalização.

No excesso de produtividade.

Na necessidade constante de estar ocupado.

Como se parar fosse perigoso.

Como se existir sem ruído obrigasse a gente a finalmente ouvir aquilo que ficou muito tempo sem espaço.

O que significa escutar

Tenho pensado muito sobre isso.

Talvez exista uma diferença importante entre curiosidade e responsabilidade.

Curiosidade abre portas.

Responsabilidade ensina como atravessá-las.

Existe uma parte da espiritualidade que talvez seja bonita justamente porque exige humildade.

Escuta.

Disciplina.

Tempo.

Menos fantasia.

Menos ego.

Menos urgência.

Porque nem toda busca precisa terminar em certeza.

Talvez algumas existam apenas para nos tornar um pouco mais honestos.

Um pouco mais presentes.

Um pouco menos endurecidos.

E talvez amadurecer também tenha a ver com isso:

Parar de tentar vencer todas as perguntas.

E começar a aprender a conviver com algumas delas.

Nem toda resposta chega em forma de explicação

Talvez existam coisas que a lógica nunca vá alcançar completamente.

Não porque sejam irracionais.

Mas porque algumas partes da vida precisam primeiro ser sentidas antes de serem compreendidas.

Talvez existam experiências que não pedem explicação imediata.

Pedem presença.

Tempo.

Silêncio.

Coragem para não saber tudo ainda.

E talvez crescer sem perder o chão também tenha a ver com isso.

Aprender a escutar aquilo que, por muito tempo, a gente tentou explicar antes de realmente ouvir.

Porque tem coisas que a lógica alcança.

Mas existem outras que só começam a fazer sentido quando a gente para, por um instante, de fugir de si mesmo.

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Autor

Henrique Mendonça

Editor do DESCALÇO.

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